Desafio aceito!

Alessandra Oliva graduou-se em 2016.

A aluna, leitora voraz, participou do grupo de edição do OLMatters no ano de 2014-15

(http://aoliva9.wixsite.com/cupcakes

 

Ao visitar a página do jornal, ela agora - alumni -  nos envia um conto escrito quando ainda era aluna da Ms. Menezes, nas aulas de Português.

Muito obrigada Alessandra. Escreva-nos sempre, será um enorme prazer divulgar seus textos. Parabéns.

[SX]  

HS Spirit Week
Commencement Exercises of 2016
Basquete Cruzada - OLM Community Service

Panquecas

- Alessandra Cesar Oliva (´16)

Abri os olhos como se estivesse levantando uma bigorna. Olhei para um lado, olhei para o outro, senti um friozinho nos pés e me enterrei de volta nas cobertas.

“Vamos Olivia, acorda,” minha mãe chamou.

Fiquei imóvel. Nada me tira dessa cama hoje, pensei.

“Então é assim?” ela disse. “Ah, que pena, acho que seu amigo Cesar vai ter que fazer panquecas sozinho…”

Ao ouvir o nome dele, meus olhos se arregalaram e chutei as cobertas para fora da cama.

Minha mãe sorriu. “Se arruma, querida, você tem meia hora pra chegar lá.”

Com isso, ela saiu do quarto.

Num piscar de olhos, corri para fora da cama e me joguei no chuveiro.

Vinte minutos depois, estava de banho tomado, cabelo obediente e certa de que nesse dia minha sorte iria mudar. Vesti minhas roupas preferidas, uma blusa rosa clara, uma saia rodada que me lembrava o oceano e meu tênis do Batman. Nada podia dar errado.

Cheguei na escola toda esbaforida de tanto correr. Dei bom dia ao pessoal da portaria e passei pela roleta.

O pátio estava cheio por causa do Saturday School. Crianças do Elementary corriam e gritavam. Já a galera do Middle e High ficava na arquibancada conversando.

Abri caminho me espremendo pelos grupinhos, quase fui atropelada por umas criancinhas e tropecei em uma folha e me estabaquei no chão, mas enfim cheguei à cafeteria.

De longe vi Cesar. Ele estava de costas pra mim, seu cabelo loiro brilhava como o sol. Como se estivesse sentido a minha chegada, ele se virou e um sorriso tão encantador quanto a natureza se abriu para mim. Ele era como um galã de cinema. Seus olhos azuis eram como duas piscinas de água pura e cristalina. Eu as ouvia me chamar pelo nome, “Olivia, Olivia…”

Foi aí que percebi que o estava encarando nos últimos minutos feito um alienígena.

“Oi Cesar, tudo bem?” eu disse rapidamente, tentando disfarçar o meu pequeno lapso de normalidade.

“Olivia, oi, que bom que você chegou,” ele respondeu em um tom suave, passando os dedos por seu cabelo angelical. “Venha, vamos começar.”

Cesar me guiou pela cozinha, até chegarmos a um canto onde um senhor bigodudo peneirava um monte de farinha. O velho levantou o rosto, olhou para Cesar, e depois para mim, e disse, “Então essa é a outra voluntária? Prazer senhorita.” O senhor esticou uma mão cheia de farinha e eu a apertei.

“Prazer,” eu disse.

O senhor me deu um sorriso amigável e coçou seu bigode, deixando um amontoado de farinha nele. “Bem, senhorita, seu trabalho será peneirar a farinha. Você pega um saco, o equivalente a 1 quilo e o despeja na peneira.” O senhor apontou para um saco e depois para a peneira que estava suspensa pelas bordas de uma panela de alumínio. “Depois é só peneirar. Aqui, deixe-me demonstrar.” O senhor pegou uma colher gigante e começou a empurrar os montes de farinha pra lá e pra cá até que os mesmos se espremeram pelos furinhos da peneira e caíram na panela.

“E quando eu terminar?” perguntei.

“Aí, você passa a panela pro seu amigo,” o senhor falou. “A única regra aqui é não comer as panquecas. Agora, se me derem licença, tenho uma cozinha para supervisionar.” Com isso, ele se foi.

Olhei pro lado. Cesar estava quebrando um ovo e despejando-o em uma tigela. Estávamos sozinhos neste canto da cozinha. Só nós dois.

Comecei passando as pilhas de farinha de um lado para o outro, mas ao mesmo tempo eu não parava de pensar em Cesar. O que ele estava sentindo? O que será que ele estava pensando? O que ele pensava de mim? Eu olhava para trás pelo canto dos olhos e via seus cabelos loiros. Meu coração batia forte dentro do peito, como se quisesse pular para fora. Talvez quisesse se jogar nos braços fortes de Cesar, mas também, quem não queria?

Não sei por quanto tempo fiquei lá, mexendo pra cá e pra lá a farinha. Quando me dei conta, não havia mais farinha na peneira, só uns grãozinhos estranhos.

“Cesar, terminei com a farinha,” eu disse, esfregando as mãos cobertas de farinha na roupa. “E agora?”

“Espera um segundo,” ele disse.

Pouco tempo depois, ele se virou e veio até a mim. Ele levantou a panela e a carregou até uma tigela com uma substância amarela gosmenta, e despejou a farinha.

“Continua com a farinha, Olivia,” ele disse. “Deixa que eu bato.” Cesar pegou um batedor e começou a misturar a gororoba.

Eu me voltei para um saco de farinha, abri-o e despejei o conteúdo na peneira. Voltei ao trabalho, mexendo de um lado para o outro os amontoados de farinha, mas minha mente pairava em torno do Cesar. Eu o ouvia misturando a substância, o batedor esbarrava nas bordas da tigela e um singelo splash rodeava o nosso canto da cozinha.

Nunca me senti tão consciente dos meus arredores. Cesar, por outro lado, parecia calmo, relaxado, sem preocupações.

Eu me voltei para a peneira e o monte de farinha. Foco no que está fazendo, Olivia, foco!, eu me repreendi. Apertei o cabo da colher e voltei a mexer a farinha.

Alguns minutos depois, meus braços já estavam começando a cansar e eu já me sentia um zumbi.

“Quer ajuda?” Cesar perguntou como se tivesse lido a minha mente.

“Eu adoraria,” eu disse, virando a cabeça para ele não ver minhas bochechas coradas.

Ele se posicionou do meu lado, pegou uma colher e começou a mover a farinha pros lados. Na peneira, nossas colheres se esbarravam em meio à farinha e tiniam como sinos de natal. Estávamos tão próximos um do outro que eu conseguia sentir o cheiro do seu aftershave.

Eu empurrava as partículas de farinha pros lados. A quantidade diminuía visivelmente a cada segundo, escoando pelos buraquinhos da peneira como areia em uma ampulheta.

Estava tão fixada nos meus pensamentos que mal percebi quando Cesar me fez uma pergunta.

“Tá com fome?” ele disse com um sorriso maroto tão radiante que me fez esquecer de como falar.

“Er,” eu gaguejei, “sim, por que?”

“Vem aqui.” Ele se aproximou, pegou a minha mão e começou a me guiar pela cozinha. Ele interlaçou seus dedos com os meus e foi como se faíscas invisíveis começassem a correr pela minha mão e se espalhassem pelo meu corpo. Eu suspirei e me senti como a Lois Lane, envolvida pelos braços do Superman enquanto voava pelo céu noturno de Metrópolis.

Pena que a fantasia tinha hora para acabar.

Cesar soltou minha mão e todos os nervos do meu corpo reclamaram. Ele se aproximou de uma travessa cheia de panquecas douradas, abriu um sorriso tão largo quanto o do gato de Cheshire, e pescou uma panqueca da travessa. O aviso do senhor bigodudo ecoou na minha mente.

“Você não faria,” eu desafiei Cesar.

Ele segurava a panqueca a alguns centímetros da sua boca quando me olhou com aquelas olhos paradisíacos. “Você faria?” ele rebateu, estendendo a panqueca na minha direção.

Olhei pra ele, depois pra panqueca, e pra ele de novo. Peguei a panqueca com mãos trêmulas.

“Espera!” eu disse um tanto alto. “Eu só faço se você fizer.”

Cesar sorriu. “Desafio aceito.”

Ele apanhou uma panqueca da travessa, dobrou-a no meio e deu uma mordida.

Foi aí que percebi um rosto vermelho e bigodudo observando tudo por trás da cabeça de Cesar.

“Ahem,” o senhor bigodudo pigarreou.

Cesar virou para trás e deu de cara com o velho. O velho olhou para Cesar, depois para panqueca mordida, e franziu as sobrancelhas.

“Você quer um prato?” o velho disse.

O rosto de Cesar ficou pálido como um lençol.

O velho deu uma gargalhada e saiu andando pelos corredores da cozinha.

Olhei para Cesar. Uma pequenina gota de suor escorregava pela lateral do seu rosto pálido. Ele soltou a respiração.

Como uma louca desmiolada deixei um sorriso se abrir. Não ria, Oliva, não ria, eu dizia a mim mesma. Ele me olhou e não pude me conter. Gargalhei.

Cobri a boca com a mão e deixei outra risada escapar. Dizer para eu não rir era como alimentar uma fogueira. Não conseguia olhar para Cesar. Ele devia pensar que eu era maluca. Ou pior.

Mordi o interior da boca. Não ria, Oliva, não ria, eu repetia na minha mente e foi em meio a isso ouvi o som mais melódico da terra. Olhei pra cima e encontrei os olhos de Cesar. Ele ria comigo, como um desmiolado sem nenhuma preocupação.

Era como se fogos de artifício estivessem explodindo no nosso canto da cozinha.

Eu olhava pra ele e ria, ele olhava pra mim e ria, até que nossas risadas se acalmaram como o mar em uma tempestade. A névoa havia baixado e por vez ele me observava.

Ele deu um passo pra frente e pegou a minha mão, entrelaçando seus dedos com os meus. Eu olhava em seus olhos e ele nos meus, até que seu olhar se fixou nos meus lábios.

Como uma tortura calma e saborosa, seu rosto se inclinou lentamente para o meu. Eu fechei os olhos e fui tomada por um toque tão elementar quanto o fogo.

Enfim, meu amor era recíproco.